Existe uma teoria da psicologia que, à primeira vista, parece bastante contraditória: sentir satisfação diante da desgraça de outra pessoa não significa necessariamente que alguém seja mau. É possível acreditar?
A ficção apresenta um contraste interessante. Na atual novela das sete da Globo, 'Por Você', Vanessa, personagem de Alinne Moraes, parece estar muito distante desse mecanismo.
A médica demonstra pouca ou nenhuma compaixão pelos quatro filhos de Juli (Lucy Ramos), que ficaram órfãos depois da morte acidental da mãe.
Como se não bastasse, ela ainda contribuiu para que as crianças fossem encaminhadas para um abrigo, mesmo depois de terem recebido carinho e cuidado de Bela (Sheron Menezzes), a melhor amiga de Juli.
Então, o que a psicologia explica sobre pessoas que se alegram com a tristeza alheia?
Esse comportamento é conhecido como Schadenfreude, palavra de origem alemã usada para descrever o prazer ou a satisfação diante do sofrimento ou do infortúnio de outra pessoa. O termo costuma ser associado à maldade, à inveja ou à falta de empatia, mas a psicologia mostra que a questão é mais complexa.
Esse sentimento pode aparecer, por exemplo, quando existe uma forte comparação social.
Ao perceber que alguém considerado mais bem-sucedido, privilegiado ou injusto enfrenta uma dificuldade, uma pessoa pode experimentar uma sensação inconsciente de equilíbrio. É como se, por alguns instantes, a vida estivesse 'fazendo justiça'.
Outra possibilidade está relacionada à autoestima. Pessoas inseguras podem comparar constantemente a própria vida com a dos outros e sentir satisfação quando percebem que alguém que consideravam superior também enfrenta problemas.
Difícil acreditar, mas existe ainda o componente da justiça. Quando alguém acredita ter sido prejudicado ou injustiçado, pode sentir uma espécie de alívio ao perceber que outra pessoa também está enfrentando consequências.
A psicóloga da saúde Encarni Muñoz explicou ao site Mundopsicólogos que esse sentimento pode aparecer justamente diante da percepção de injustiça: se eu fui prejudicado, pode surgir a sensação de que outras pessoas também deveriam experimentar dificuldades.
Isso significa que todo mundo que sente esse tipo de satisfação é cruel? Não. O sentimento, por si só, não transforma alguém em uma pessoa má.
Uma coisa é experimentar uma reação espontânea diante de uma situação; outra completamente diferente é desejar ativamente que alguém sofra, provocar esse sofrimento ou sentir prazer constante com a dor alheia.
Aí a psicologia mostra que pessoas com níveis maiores de empatia tendem a experimentar esse sentimento com menor frequência, justamente porque conseguem imaginar como seria estar no lugar de quem está sofrendo.
Existe uma maneira de lidar melhor com esse tipo de reação. Uma das estratégias é tentar interromper a comparação e se perguntar: “Eu gostaria que alguém sentisse prazer se algo ruim acontecesse comigo?” Essa mudança de perspectiva pode ajudar a desenvolver empatia.
Também pode ser saudável voltar a atenção para a própria vida. Em vez de acompanhar constantemente o que acontece com o vizinho, colega ou conhecido, concentrar energia nas próprias metas, experiências e objetivos reduz a necessidade de comparação.